José Alberto Brandão Pires entrevista o ícone Lilian Mitsunaga



Beto Brandão - Quero saber um monte de coisas! Mas só tenho algumas perguntas precipitadas. Se puder responder qualquer uma que seja...

Lilian Mitsunaga - Olá! Vamos lá. Vou responder algumas, ok?


B. B. - Seu nome completo.

L. M. - Lilian Toshimi Mitsunaga Farias.


B. B. - Alguma HQ mudou a sua maneira de ver o mundo?

L. M. - Acho que nenhuma HQ poderia mudar a maneira de alguém ver o mundo, mas a somatória de tudo o que você ler durante a sua vida pode ajudar a compreender melhor as pessoas e as diferenças que nele existem. Cultura nunca é demais, seja ela em qualquer tipo de manifestação, inclusive os quadrinhos.


B. B. - Que artista mais influenciou a sua carreira?

L. M. - Acho que meus pais. Eles foram responsáveis pela minha educação e disciplina. Meu pai já é falecido, mas os dois pintaram quadros, aquarelas, retratos durante a vida toda e gosto de pensar que me espelhei neles. Talvez não seja a resposta que você esperava, mas nestes anos todos trabalhando com quadrinhos, não saberia apontar um quadrinista específico. Foram tantas revistas e, sinceramente, nunca parei pra pensar nisso. Não poderia esquecer minha irmã, Marli, uma arte-finalista de mão cheia e que me deu muitas dicas de quais penas usar para os trabalhos. Se alguém me influenciou, foi ela. Vivia dizendo pra eu fazer balões com peninha que ficavam mais bonitos e tal. Era verdade.


B. B. - Que HQ você mais lê?

L. M. - Sinceramente? A que eu estiver letreirando (risos). Bem, pra dizer a verdade, eu era consumista voraz de quadrinhos quando pequena. Aprendi a ler bem cedo e lia tudo o que caísse no meu colo, de fábulas dos Irmãos Grimm a HQs. Desde os 5 anos, lia Disney, as histórias do Mickey detetive, as grandes aventuras dos patos de Carl Barks (só mais tarde fui descobrir que eram dele as HQs que eu mais gostava), A Turma da Mônica e Super-Heróis.



Meu irmão era sócio da biblioteca da cidade e me trazia sempre livros de histórias pra ler. O namorado da minha irmã mais velha fez uma pilha de quase um metro de altura com as revistas do Super-Homen, Superboy, Batman e trouxe pra eu ler nas minhas férias escolares. Eu lia tudo. A contradição é que, quando comecei a trabalhar com isso, parei de ler, por absoluta falta de tempo.


B. B. - Dê um exemplo de uma HQ muito boa mas desvalorizada.

L. M. - Não apontaria uma HQ, mas todos os artistas nacionais que precisam se desdobrar pra sobreviver.



B. B. - Cite uma HQ que frustrou suas melhores expectativas.

L. M. - A série Vagabond. Desenho fantástico que foi abandonada pelo autor.


B. B. - E um HQ surpreendente, ou seja, boa e pela qual você não dava nada.

L. M. - Que engraçado. Nunca me deparei com questionamentos desse tipo. Por pior que fosse uma HQ, eu sempre acho que tem seu mérito. Talvez por ser de uma geração que nasceu antes dos computadores, nunca menosprezei a arte de ninguém. Ainda mais porque sabia o quanto é difícil produzir arte a partir do nada. Uma idéia e um papel em branco. Isso é fantástico. Cabe a cada um escolher o que mais lhe agradar para ler. Criticar os outros é muito fácil, arregaçar as mangas e pôr mãos à obra é bem mais difícil.


B. B. - As HQ estão cheias de cenas marcantes. Cite algumas.

L. M. - Hmm... Vou citar alguns desenhistas que gosto: Frank Miller, Takehiko Inoue, Milo Manara, Schulz, Barks...


B. B. - Que boa HQ lhe fez mal, de tão perturbadora?

L. M. - Nenhuma.


B. B. - E que HQ mais a fez pensar?

L. M. - Todas te causam sensações. Alegria, tristeza, indignação. Mas eu gosto de HQ que me faça esquecer da realidade e embarcar num mundo de fantasia por alguns momentos, e pensar que existe solução pra qualquer problema. Se for pra ficar de baixo astral, eu dispenso.


B. B. - Quais artistas você leu e viu tudo?

L. M. - Acho que sempre fica alguma coisa que você não leu. E não dá pra comprar tudo. (risos)


B. B. - Existe algum artista com o qual você nunca perderia seu tempo?

L. M. - Acho que todos têm seu valor. Mas eu não curto HQs baixo astral. Tem quem curta e acho válido.


B. B. - Cite uma HQ que foi fundamental em sua formação, mesmo que hoje você não a considere tão boa como na época que leu.

L. M. - Quando eu era bem pequena, adorava ler Mickey; aquelas histórias de mistérios e aventuras. Não sei se foi isso que me fez gostar de livros, mas eu sempre adorei ler. Não tenho livro, nem HQ de cabeceira. Gosto de variedade.


B. B. - Uma HQ difícil, mas indispensável.

L. M. - Maus.


B. B. - Uma HQ que começa muito bem e se perde no caminho.

L. M. - Vagabond... Literalmente.


B. B. - Uma HQ pior que o sua adaptação para as telas.

L. M. - Normalmente as adaptações deixam mais a desejar do que o contrário. Não acho que tenha algo melhor na tela do que nas publicações.


B. B. - Que HQ demolida pelos críticos você gostou?

L. M. - Não gosto de críticos. Cada um deve avaliar por si mesmo se gosta ou não de alguma coisa.


B. B. - Cite um vício literário e/ou de desenho que você considera abominável.

L. M. - Usar revista de mulheres nuas como referência para desenhar. Terrível.


B. B. - Tem algum página pessoal na Internet?

L. M. - Não. Deveria, né?


B. B. - Pratica ou já praticou atividades físicas?

L. M. - Gosto de caminhar. Quando era mais jovem, gostava de nadar.


B. B. - Gosta de livros? Está lendo algum?

L. M. - Sim. Gosto de romances. Acabei de ler A Montanha e o Rio. Agora estou lendo A Escolha da Dra. Cole, do Noah Gordon.


B. B. - E música? Televisão? Cinema? Teatro?

L. M. - Quem não gosta de música? Amo Beatles, Queen, Roy Orbison, Cold Play, Titãs, Paralamas... Gosto de rock... E de trilhas sonoras. Trabalho com a TV ligada o dia todo. Adoro cinema e teatro. Vou menos ao cinema e teatro do que gostaria, mas adoro ver filmes em casa. Assisto pelo menos um seriado ou filme por dia.



B. B. - Sabe cozinhar?

L. M. - Olha, o pessoal aqui não reclama. Eu me viro bem na cozinha.


B. B. - Trabalha em casa?

L. M. - Sim. Sempre. Evita o estresse de locomoção, principalmente em São Paulo, onde moro.


B. B. - Você coleciona HQ?

L. M. - Só tenho as que letreirei e letreiro. E olha que são muitas. Não tenho mais espaço físico pra guardar.


B. B. - Qual a sua escolaridade?

L. M. - Superior completo. Sou arquiteta formada pela FAUUSP.


B. B. - O que a levou a seguir esse caminho, se era isso que você queria; se era outra coisa, o que era?

L. M. - Na verdade, na época em que eu fazia faculdade (período integral), eu queria muito trabalhar e soube que na Abril tinha emprego com esquema freelancer. Daí, comecei a treinar letras em casa e levei pro editor ver. Ele gostou e estou aqui até hoje.

Não pensava em fazer isso pra sempre. Queria me formar em arquitetura e seguir a carreira, mas acabei gostando muito deste mundo de quadrinhos e fui ficando.


B. B. - Se sente realizada neste sentido?

L. M. - Totalmente. São quase 30 anos fazendo o que eu gosto.


B. B. - Tem ou já teve trabalhos (ofícios) diferentes paralelamente com o das letras?

L. M. - Trabalhei um ano e meio com arquitetura. Fiz muita colorização pro site da minha irmã e até arrisquei a fazer algumas coisas em flash. Adorei.


B. B. - Devido ao mercado editorial, em algum período de sua vida profissional, já passou por dificuldades?

L. M. - Vira e mexe tem crises no Brasil, não? Atualmente estamos enfrentando uma. Alguns projetos são engavetados, mas não posso me queixar. Dificuldades todo mundo tem.


B. B. - Quando os gibis estiveram mais em alta?

L. M. - Acho que na década de 80/90 até 2000, com o boom dos mangás. Hoje, acho que o mercado está mais retraído, mas existem muitas editoras. Acho que se vende o mesmo só que diluído em muitas publicações.


B. B. - Gostaria de nos contar alguma coisa? De acrescentar algo? De corrigir alguma coisa?

L. M. - Gostaria de agradecer pelas palavras bacanas que você me dirigiu e dizer que fiquei contente com a lembrança. Minha mensagem é: leiam muito; vejam muitos filmes, seriados; vão ao teatro, ao cinema, enfim. Usem o tempo pras coisas boas e sejam felizes.


B. B. - Eu penso em ser escritor desde os dez anos. Sempre li revistas em quadrinhos, e só na adolescência surgiu o meu verdadeiro amor pelos livros.

Por que razão você veio ao mundo?

É isso o que eu gostaria de saber de mim, por isso pergunto aos outros...

L. M. - Taí, uma boa pergunta. Acho que vim ao mundo pra trabalhar com quadrinhos e pra tentar fazer a diferença. Todos nós, não? Se conseguiu fazer uma pessoa feliz, já terá valido a pena.


B. B. - Então sua missão está mais que cumprida!
Lilian Mitsunaga, agradeço imensamente a sua atenção e educação!

L. M. - Eu que agradeço.


B. B. - Saúde e prosperidade!

L. M. - Vida longa e próspera (como diria um certo orelhudo)!

Desculpe por não responder tudo.

Beijos

Lilian


0 comentários: